Uma pequena
narrativa que exemplifica as dinâmicas da crise financeira dos
países periféricos europeus, com base nos estudos dos
economistas Hyman Minsky e
Roberto
Frenkel.
Os protagonistas são
dois: o masculino é um país desenvolvido, a quem chamaremos
"Centro", com uma forte base financeira e industrial; o
feminino é um país, ou um grupo de países, relativamente
atrasados, a que chamaremos Periferia".
Entre o Centro e a
Periferia, a atracção é repentina e fatal (especialmente para a
Periferia), mas, como em todos os romances, as diferenças de origem
são um problema. Se assim não fosse, que interesse teria a
história, cujo apelo reside, justamente, nas grandes diferenças
entre os protagonistas?
O Centro é um rapaz
moderno, ousado, enquanto a Periferia é uma rapariga à moda antiga,
poupada, sábia e um pouco "reprimida”. Que é que estão a
pensar? Não, não é sexualmente reprimida! Isso ao Centro não
interessa. O Centro é virtuoso. Apedreja as adúlteras (depois de
ter ido com elas para a cama). Não, a Periferia é, como dizem os
economistas, um pouco reprimida financeiramente, o que significa, em
poucas palavras, que na Periferia o Estado mantém um certo controlo
sobre os circuitos de poupança e investimento.
Por exemplo – vejam
que ideia tão esquisita – na Periferia, a política monetária é
considerada uma ferramenta à disposição do governo, para ser
mantida, ainda que de forma mediada, sob controlo da soberania
democrática do povo. Ouviram bem: é exactamente aquilo a que os
intelectuais da nossa esquerda chamariam "populismo", que é
o termo com que definem qualquer circunstância em que as pessoas não
fazem o que eles querem que elas façam. Sim, porque… o que é que
o povo sabe de moeda?!
A Periferia é
portanto reprimida e populista, e daqui derivam uma série de
práticas arcaicas: o banco central não é "independente"
(independente dos trabalhadores, é óbvio, não dos capitalistas), e
uma série de instituições financeiras (bancos, fundos de reforma)
estão sob controlo directo ou indirecto do Estado; por isso, o preço
do dinheiro, não é deixado aos caprichos do mercado, sendo gerido
pelo Estado. E, para alcançar esta meta, os movimentos
internacionais de capitais são controlados, de outra forma fugiriam
em busca de melhores remunerações noutros lugares. Não só os
fluxos de saída, também os fluxos de entrada são controlados pela
Periferia reprimida: a ideia moderna de que as empresas nacionais
(públicas ou privadas) estão aí para serem postas à venda pela
melhor oferta, essa ideia tão avançada, ainda não chegou à
Periferia. E isto vale especialmente no sector financeiro, onde aos
bancos estrangeiros é aplicado o mesmo princípio que os países
desenvolvidos aplicam aos trabalhadores estrangeiros: "Eu não
sou racista, desde que cada um fique na sua casa" – um
princípio que dá arrepios quando é aplicado às pessoas; e quando
não é aplicado aos bancos. No entanto, vejam só, a Periferia é
tão reprimida que até as instituições financeiras nacionais são
controlados pelo Estado, que impõe restrições às suas
actividades, o que significa que estas instituições são obrigadas
a comprar uma certa quantidade de dívida pública. E também impõe
limites máximos de crédito, o que significa que os bancos não
podem emprestar muito, ou seja, os privados não podem endividar-se
demasiado
. Até porque o próprio Estado não se endivida
muito, e mesmo a sua dívida, em relação ao PIB, diminui, porque as
taxas de juros são mantidas sob controlo, e assim não é preciso
elevar a carga tributária e reduzir a despesa nos serviços
essenciais, para correr atrás da explosão dos juros, usando para
isso o dinheiro dos contribuintes (que assim é distribuído aos
detentores dos títulos da dívida… (que muitas vezes não
contribuem.)
Pois: esta é a
repressão financeira. E não é explicada por Sigmund Freud, mas
pela
Carmen
Reinhart (entre outros).
Alguém mais cortês
chamaria a isto "regulação" dos mercados financeiros.
Parece-vos um mundo estranho, arcaico? É porque têm a memória
curta, pois até aos anos 80, este era o nosso mundo, o mundo
ocidental. E é agora claro que precisa de voltar a sê-lo.
No entanto, esse
mundo já não é nosso, não é assim que agora funcionam as coisas:
o Centro, que é um rapaz evoluído, não pode simplesmente
apresentar a seus pais, os mercados, uma rapariga tão fora da moda!
E então "sugere" à Periferia que faça algumas reformas,
duas, na verdade, e por acaso sempre as mesmas: a adopção de uma
taxa de câmbio fixa e a liberalização dos mercados financeiros; e,
a jusante, dos movimentos de capitais internacionais.
O Centro, que é
esperto, obtém assim duas vantagens.
Vantagem número um: na
Periferia, a liberalização dos mercados financeiros eleva
forçosamente as taxas de juro. O Estado já não pode contar com
alguns dos compradores institucionais dos seus títulos (o banco
central, que se torna "independente", e os bancos e fundos
de reforma, que gradualmente caem nas mãos do sector privado), e por
isso, para se financiar, tem de oferecer taxas de juro mais
elevadas.
Mas também as taxas do sector privado são
liberalizadas e, portanto, tendem a crescer. Na Periferia é
realmente preciso capital, porque, como já foi dito, a sua base
industrial é atrasada, o que obriga necessariamente a que as taxas
de juros tendam a ser elevadas. Antes, quando a Periferia estava
reprimida, o Estado controlava o preço do dinheiro, mantendo-o
dentro de limites determinados por ele. É claro que desta forma o
dinheiro custava relativamente pouco, mas se a economia sobreaquecia,
porque as empresas se endividavam demasiado, o Estado podia intervir,
talvez com ferramentas de tipo quantitativo, como impor um limite
máximo aos empréstimos: se, por um determinado preço do dinheiro,
o sector privado estava a endividar-se muito, financiando em dívida
a sua procura de bens, o Estado simplesmente proibia os bancos de
emprestar além de um certo limite.
Mas os controlos quantitativos
foram abolidos: porque são uma coisa feia, sabem a economia
planificada, e nós não somos bolcheviques! O mercado sabe o que
fazer, deixemos que a oferta e a procura sejam determinadas pelos
preços, liberalizem as taxas! Então, para evitar que o crédito
concedido seja excessivo, será preciso permitir que a taxa de juros
suba. É claro: desta forma os empresários locais pensam duas vezes
antes de se endividar (a lei da oferta e da procura: custa mais,
compro menos).
Mas esqueceram-se de um detalhe. Pois!
Liberalizámos também os movimentos internacionais de capital. E
então o que acontece? O que acontece é que os credores do Centro,
os grandes bancos do sistema maduro, atraídos por taxas mais
elevadas, exportam capitais para a Periferia. Eles têm capitais, e
muitos! O Centro tem uma indústria que ganha bem, e os industriais
não estão habituados a manter o dinheiro debaixo do colchão,
sabem? Assim, os bancos centrais, que têm dinheiro, deslocam-no para
a Periferia, onde o Estado e os particulares pagam taxas de juros
mais altas do que no Centro, maduro, cheio de capitais.
Como é que fazem? De
mil maneiras: abrem filiais dos seus bancos na Periferia (agora podem
fazê-lo); abrem financeiras que gerem poupanças ou oferecem crédito
ao consumo (agora podem); às vezes integram estas financeiras nas
cadeias de distribuição (supermercados, concessionarias) que,
entretanto, adquiriram (agora podem); e podem sempre intervir no
mercado de acções e comprar pacotes de controlo de empresas
nacionais (agora podem); e se alguma empresa nacional, que faz bons
negócios, era, infelizmente, pública, não há problema: compram
dois ou três jornais (agora podem) e uns quantos ministros (isto
sempre foi possível), e começam a espalhar, 24 horas por dia, a
ideia de que o Estado é ineficiente e fonte de todo o mal, e por
isso é preciso privatizar empresas públicas, começando por aquelas
que funcionam, e está feito.
Economistas ilustres das
colunas de jornais prestigiosos acenarão satisfeitos.
Mas porque começámos
pela fixação da taxa de câmbio? É simples! Porque os capitalistas
do Centro querem (legitimamente) ganhar o spread, a diferença
entre as taxas de juro, sem correr o risco da taxa de câmbio ou
seja, sem correr o risco de que a Periferia se desvalorize, como
seria natural, no fundo, para um país que se torna um importador de
capital e, portanto, de mercadorias. Afinal, não há nada de errado:
jogos inocentes, desde que se pare no momento certo.
Mas pensem um pouco:
se as taxas de juro fossem as mesmas no Centro e na Periferia, o que
aconteceria se se fixasse a taxa de câmbio? É simples: o spread
aumentaria. "O que?" dirão. "Ao adoptar uma taxa
de câmbio realística não vão os spreads cair, como
aconteceu na Europa, onde os gregos e os espanhóis foram capazes de
beneficiar de taxas alemãs?" Esperem lá: falta alguma coisa na
vossa argumentação.
Se fizermos um investimento noutra
moeda, no rendimento geral também devem ser consideradas a
reavaliação ou desvalorização esperadas para essa moeda. Exemplo:
antes do euro, o alemão que emprestava ao espanhol tinha que olhar
não só para as taxas de juros (mais elevadas em Espanha), mas
também para a flutuação do câmbio. É inútil ganhar um ponto de
juros emprestando ao Carlos em vez de ao Hans, se o Carlos
desvaloriza, digamos, 4%, certo? “Mas quando falamos de spread
só estamos a comparar duas taxas de juros, e não a falar sobre
o câmbio” – dirão vocês. Pois: hoje o câmbio já não existe:
é 1 euro (espanhol) para 1 euro (alemão). Por isso não falamos do
câmbio, mas quando existia falava-se dele.
Querem um exemplo? Em
1998, um ano antes da entrada para a zona euro, a taxa de juros de
longo prazo era de 4,8 na Espanha e 4,6 na Alemanha (IFS dados de
2010), e, assim, o spread era de 0,2, ou seja, 20 pontos base.
Mas como a peseta em 1998 desvalorizou cerca de 0,2% em relação ao
marco, o spread real foi negativo: -1,0 = 0,2-1,2, ou seja,
para o investidor alemão não convinha emprestar ao Carlos. Era
melhor emprestar ao Hans. Em 1999, ambas as taxas desceram: na
Alemanha, 4,7, na Espanha, 4,5. O spread era então de 0,2,
como no ano anterior. E a desvalorização? Acordem! Em 1999, havia o
euro, por isso não havia necessidade de correcções causadas pela
desvalorização. Significa isto que o spread da Espanha
passou de -1,0 a 0,2, ou seja aumentou 120 pontos. Com o euro, já é
melhor emprestar ao Carlos, não? Parece pouco, eu sei, para mim ou
para vocês, que movimentamos uma conta bancária com três zeros (se
tudo correr bem): mas se movimentássemos milhões de euros, esta
diferença de rendimentos tornar-se-ia significativa, e vocês
investiriam os vossos tostões onde valesse a pena. Por exemplo, na
Espanha.
A chegada da liquidez
à Periferia abre novas oportunidades de investimento e consumo, já
que o fluxo de dinheiro do exterior, lentamente, após a fase
inicial, faz diminuir as taxas de juros e os spreads (a lei da oferta
e da procura), e a liberalização dos mercados financeiros cria
novas possibilidades de despesa. Num mundo reprimido não se compra
um televisor a prestações. No mercado livre, sim. Os economistas
chamam "mercados financeiros perfeitos" àqueles onde é
possível ter tudo – e já, porque encontramos sempre quem nos
financie, obviamente pagando um preço. A Periferia está
entusiasmada: parece que chega ao céu com as mãos; excitada pelo
capital do Centro, atinge alturas de prazer consumista para ela
insuspeitas até há pouco tempo. Orgasmos múltiplos, lubrificados
pela taxa: carro novo, frigorífico novo, tv nova… Sem falar na
possibilidade de empréstimos para primeiras e até segundas casas
(segundas, porque muitas vezes, na periferia, as famílias já têm
uma)...
Como podem ver, aqui
começa a segunda vantagem para o Centro: ao drogar, com os seus
capitais, o crescimento dos rendimentos da Periferia, o Centro
assegura um mercado para os seus produtos, que os cidadãos da
Periferia podem agora comprar, graças aos efeitos directos e
indirectos de um acesso ao crédito fácil.
Em suma: é a velha
história. O Centro serve a bebida, a Periferia, distraída (ok, nem
sempre), bebe, e concede ao Centro os favores extremos... dos seus
cidadãos, que compram, compram, compram, absorvendo o excedente do
sistema industrial maduro do Centro.
Começa a parte
triste da história. A periferia está inchada. Estão enganados: não
é uma gravidez, é uma bolha.
Sabem o que é uma
gravidez. E uma bolha? Como defini-la? Uma bolha é o desvio do preço
de uma actividade financeira do seu valor fundamental. Vou explicar.
O valor presente de uma acção, em princípio, depende do valor de
dividendos futuros, do rendimento que essa acção irá garantir a
longo prazo. Um valor incerto, é claro. A acção, no entanto,
também pode ser comprada e vendida livremente. Ora, se alguém
espera que os dividendos futuros cresçam, oferecerá mais para
comprar uma determinada acção. E se alguém espera que um outro vá
oferecer mais, tentará comprá-la antes, para lha vender depois mais
cara, elevando assim o preço. Chama-se a isto "expectativa que
se auto-realiza" (self-fulfilling expectation). E uma vez que o
primeiro que pensou nisto vê os negócios correrem-lhe bem, logo um
segundo, um terceiro, e depois um quarto vão seguir-lhe os passos,
tentando adquirir aquela acção, cujo preço dispara, empurrado por
uma procura que já não tem relação com os rendimentos esperados a
longo prazo (dividendos futuros), mas apenas com a expectativa geral
de que o preço suba.
A matemática
financeira ensina-nos que, com taxas de juros de 5%, faz sentido
pagar 20 por um papel que em cada ano rende 1. Mas se todos quiserem
aquele pedaço de papel, ponderamos adquiri-lo por 100, e fazemo-lo
de bom grado, na perspectiva de o vendermos, no dia seguinte, por
150. Deus! 50% em dois dias, comparados com 5% num ano?!
Mas como podem ser
longas 48 horas! Sabe-o bem quem tinha acções no dia 25 de Outubro
de 1929, à espera que os mercados reabrissem na segunda-feira
seguinte; sim, aquela que entrou para a História como "segunda-feira
negra".
E a bolha
imobiliária? Simples: recuemos algumas linhas, substituamos a
palavra "acção" pela palavra "apartamento", e a
palavra "rendimento" pela palavra "renda", e aqui
está a bolha imobiliária. Que é, no entanto, ligeiramente
diferente, já que os apartamentos são menos "líquidos"
do que uma acção: não basta ligar para o nosso promotor
financeiro para nos livrarmos deles…
Resumindo, a
Periferia, graças ao capital estrangeiro, cresce. O consumo cresce,
os investimentos também crescem. Atraídos pelo crescimento, os
mercados deslocam cada vez mais capitais para a Periferia, até
porque o crescimento, drogado pela dívida privada (capital
estrangeiro emprestado a famílias e empresas), melhora as finanças
públicas: o rácio dívida pública/PIB estabiliza ou desce. O
estúpido (ou inteligente?) que acha que "a única dívida é a
pública" fica tranquilo. Bem virtuosa parece a Periferia aos
polícias (ingénuos ou coniventes?) do FMI! A Periferia é uma boa
rapariga, fez o que nós dissemos: tornou-se "credível"
(eufemismo sinistro), tornou-se um pouquinho puta, ou seja,
liberalizada, e os resultados são visíveis.
Liberdade
(financeira), quantos crimes se cometem em teu nome!
O influxo de capital
já não é guiado pelo spread, a diferença entre as taxas de
juros da Periferia e do Centro. Pode até acontecer (mas nem sempre)
que esta diferença se reduza: a mobilidade de capital, como dizem os
livros dos economistas, iguala os retornos de um país para outro (a
lei da oferta e da procura). Nem sempre é assim, mas mesmo que
fosse, o que agora atrai o capital para a Periferia não é a taxa de
juros, o rendimento a longo prazo, mas o ganho de capital, o
crescimento convulso do preço das actividades.
Na economia drogada a
febre cresce: o acesso ao crédito fácil faz aumentar a inflação,
e se no início o mercado exterior era procurado para bens de luxo,
com o tempo, os produtos estrangeiros tornam-se competitivos, mesmo
nas faixas mais baixas, porque os preços domésticos cresceram;
assim se aprofunda o défice comercial, e é preciso novo capital
estrangeiro para o financiar. Além disso, como já foi dito antes,
um importador de capital também é um importador de produtos.
Isso
mesmo: drogada! A Periferia está viciada em capital estrangeiro, e a
dose tem de ser sempre maior para fazer efeito. Não há crime contra
si própria que a Periferia não cometa para a conseguir.
Prostitui-se de todas maneiras, destruindo em poucos anos o estilo de
vida e as expectativas razoáveis de rendimento dos seus
cidadãos que, de um dia para outro, são privados de direitos
adquiridos, como assistência social e reformas; ao desmantelar o
sistema industrial, de que já não precisa, porque os fundos chegam,
e chegarão sempre, e será sempre possível comprar no exterior,
onde produzem muito melhor o que já não é conveniente produzir em
casa; ao dar o melhor de si, toda ela, ao Centro.
"Tu
amas-me, Centro?" "Claro, Periferia" "E vais
amar-me para sempre?" "É claro, tola, que pergunta! Por
falar nisso, o que vais fazer com aquela indústria de petróleo,
como é que se chama? A CNP, a companhia nacional de petróleo...
Vamos lá, dá-me a CNP, dá-me a CNP, que por sua vez terá um
influxo de capital que nem vais imaginar!" "Mas tenho que
te dar isso também?" "Já me deste tudo, tudo!" "Mas
a minha mãe disse-me..." “A tua mãe? Já leste o Sólon e o
Licurgo nas colunas do Jornal? Vê lá como é que se pode a vender a
CNP." "Mas tenho medo..." "Mas eu amo-te,
Periferia. Vamos, diz-me que sim, e vais ver quanta liquidez vou
injectar no teu circuito..."
A infeliz acedeu.
Mas o facto é que
existe uma lei, não sei se da economia se da própria natureza, que
diz "o que é demais, incomoda". Em economia, acho que seja
chamada “lei dos rendimentos decrescentes”. Encontrar usos
produtivos para quantias de capital enorme e crescente não é fácil,
e os influxos de capital (sim, mesmo aqueles de cuja falta os nossos
Quisling muito
se queixam na Itália) são, para o país que os recebe, dívidas
externas, que é preciso reembolsar, mas que, quanto mais crescem,
menos produzem os rendimentos necessários para os pagarmos.
Ah, não sabiam? Como
é possível? Vocês?! Os arautos do mercado livre e da economia
ortodoxa, ignoram essa outra verdade simples: não existem almoços
grátis,
no free lunch, não podem obter algo por nada.
Hum, entendo, entendo... Pois é, parece-me ter lido algo assim nos
jornais italianos. Que eu agora só uso o jornal para embrulhar
peixe, e assim, entre uma escama de robalo e um esboço de tinta de
choco, reparei que de facto na Itália há um bando de idiotas que
pensam que o dinheiro vem de graça do estrangeiro, que os
investidores estrangeiros compram acções italianas e adquirem o
controlo de empresas italianas porque somos agradáveis, criativos,
enfim, porque até nos amam. E por isso os fluxos de capitais são
bons: nós precisamos deles, eles dão-nos o que precisamos, e a
história termina aqui. Pensei que tinha lido mal, sabem, com a
pressa, a panela no fogão, os hóspedes no terraço... Mas vocês
dizem-me que há realmente gente tão estúpida a ponto de pensar que
o estrangeiro oferece capitais como presentes!? E que a venda em
saldos de empresas nacionais, públicas e privadas, aos investidores
estrangeiros, não só não deve ser impedida, mas até encorajada!?
E até deixam escrever isto nos jornais!? A partir de amanhã, com
aqueles jornais nem sequer vou embrulhar o peixe! O nobre robalo não
merece uma mortalha tão vil...
Deixem-me explicar:
quem empresta espera receber o seu dinheiro de volta, com juros; não
pensa em oferecê-lo, não é burro! E isso vale para todos os tipos
de empréstimos, entendem?
Por exemplo: quem
compra uma empresa na Periferia não o faz para fomentar emprego e
crescimento na Periferia (na maioria das vezes começa por despedir
pessoas, já repararam?). Não: faz isso porque quer ganhar dinheiro
e depois levar os lucros para o Centro (e às vezes, para ganhar
mais, passa por cima de algumas regras, já repararam?). Pronto,
tentem meter bem dentro da cabeça esta simples realidade: o que hoje
é um influxo de capital, amanhã torna-se uma saída de rendimentos.
A entrada de capital estrangeiro (para comprar um título público,
para financiar a compra de uma segunda casa ou do primeiro TV de
plasma de um particular, ou para adquirir uma empresa), amanhã
torna-se uma saída de rendimentos para o exterior (lucro ou juros).
Entenderam? Hoje entra o dinheiro, na forma de crédito (ao Centro),
ou seja, dívida (para a Periferia). Amanhã, o dinheiro sai na forma
de passivos na balança de pagamentos, passivos que aumentam ainda
mais o défice externo da Periferia, que, tal como a usura ensina, é
obrigada a pedir mais capital emprestado, não para financiar o
investimento produtivo nem os consumos, mas simplesmente... para
pagar os juros! Dinheiro que no início a periferia nem sequer
queria, lembram-se? Porque no mundo "reprimido" o circuito
das poupanças ficava encerrado dentro do país: para a Periferia
chegavam as poupanças dos seus cidadãos, que ainda tinham algumas,
uma vez que nem tudo tinha sido privatizado e, portanto, os preços
dos serviços essenciais não tinham ainda disparado; no fundo não
era assim tão mau, e algo se conseguia poupar.
Chegamos ao final
triste.
Um belo dia a
Periferia acorda com náuseas e vómitos. Uma grande empresa está em
crise financeira? Os bancos com problemas de crédito vencido
percebem que os devedores não vão conseguir devolver o dinheiro. E
o amor acaba, dando lugar a uma certa impaciência. O Centro começa
a duvidar da capacidade da Periferia para pagar as suas dívidas.
Exige o pagamento de juros sempre mais altos para cobrir o risco; o
spread, que era alto, e depois se tornou nulo, dispara
novamente. A Periferia entra na espiral da dívida, incha mais e
mais, e para saber o resto basta abrir um jornal.
Não é um final feliz.